Iniciativa popular criada em Niterói ganha reconhecimento nacional por combate à defasagem escolar e atuação no território. A Oficina Nossa, iniciativa comunitária do Morro do Palácio, em Niterói, foi selecionada no Prêmio Periferia Viva 2025, promovido pela Secretaria Nacional de Periferias do Ministério das Cidades. Nesta terceira edição, o prêmio teve 2.540 inscrições em todo o país e reconheceu 178 projetos, sendo 150 iniciativas populares, 25 assessorias técnicas e três entes públicos. A Oficina Nossa está entre as selecionadas no eixo de iniciativas populares. A premiação foi entregue durante o 1º Encontro Nacional de Periferias, realizado em São Paulo pela Secretaria Nacional de Periferias. O evento reuniu cerca de mil representantes de 350 favelas e comunidades urbanas de todo o Brasil e teve como eixos a cerimônia do prêmio, o lançamento do Raio-X das Iniciativas Periféricas e debates sobre as condições de atuação dos coletivos que constroem soluções concretas nos territórios populares. A trajetória da Oficina Nossa ajuda a explicar a força desse reconhecimento. O projeto nasceu no período pós-pandemia, quando a educadora e moradora do território Walkiria Nictheroy percebeu um problema urgente. Com as escolas fechadas, sem estrutura para ensino remoto e com acesso precário à internet, muitas crianças da favela estavam fora da rotina escolar e acumulando defasagens de aprendizagem. Foi a partir dessa realidade que ela começou a organizar, com apoio de uma rede de voluntários e da universidade, um espaço de reforço, cuidado e convivência dentro do próprio morro. O relato de Walkiria sintetiza esse começo com força e delicadeza. A educadora afirmou que há seis anos só queria oferecer um espaço de aprendizagem seguro para as crianças da sua favela, com o desejo de que elas tivessem a oportunidade de aprender com referências na própria cultura e aprendendo a se amar. A Oficina começou de forma simples, no salão de festas da comunidade, porque era o espaço possível naquele momento. Depois, seguiu sua trajetória em outros pontos do território, ampliando sua estrutura e sua capacidade de atendimento. Em 2023, a iniciativa passou a funcionar no MACquinho, onde ganhou melhores condições físicas e ampliou suas atividades. Em materiais do próprio projeto, a Oficina Nossa é apresentada como uma ação fundada em 2022, no Morro do Palácio, voltada ao enfrentamento da distorção idade-série e da defasagem de aprendizagem agravadas pelo ensino remoto na pandemia. Também em 2023, o MACquinho passou a desenvolver parceria com a Universidade Federal Fluminense, por meio do projeto de extensão “UFF-Comunidades: um estudo sobre conexões entre sujeitos sociais, conflitos e os impactos coletivos”, mobilizado pelo INEAC-UFF. Segundo artigo acadêmico sobre a experiência da Oficina Nossa, as ações dessa parceria começaram em abril de 2023 e se organizaram em cinco eixos, entre eles arte, educação e juventude, memória e identidades, e organização comunitária e divulgação científica. Ao longo desse percurso, a Oficina Nossa deixou de ser apenas uma resposta emergencial à defasagem escolar e se consolidou como uma iniciativa de formação integral. O projeto articula reforço escolar, arte, atividades culturais e construção de pertencimento. Mais do que melhorar o desempenho das crianças, a proposta trabalha com a valorização da memória coletiva do Morro do Palácio e com o direito de crianças periféricas aprenderem a partir de referências próximas de sua própria realidade. Esse aspecto também dialoga com o sentido político do prêmio. De acordo com o Ministério das Cidades, o Prêmio Periferia Viva foi criado para reconhecer e fortalecer iniciativas periféricas que transformam as comunidades, atuando no enfrentamento das desigualdades e no desenvolvimento social. Em 2025, o tema da edição foi “Periferia Viva é Construção Coletiva”. Hoje, a Oficina Nossa segue sua caminhada em um espaço de base comunitária voltado ao acolhimento, ao apoio cotidiano e à organização do cuidado no território. É desse chão concreto, onde a favela aprende a se sustentar e a se fortalecer de dentro para fora diante da ausência histórica do poder público, que o projeto continua crescendo. A seleção no Prêmio Periferia Viva 2025 reconhece exatamente isso: uma iniciativa que nasceu da urgência, da escuta e da responsabilidade de uma moradora com as crianças do seu território e que se transformou em referência local de educação, afeto e pertencimento. A educadora declarou que na pandemia, de máscaras, com medo e sem nada, eles só sabiam que não podiam deixar a favela para trás. A frase de Walkiria não resume apenas a origem da Oficina Nossa, ela ajuda a explicar por que esse projeto importa tanto para o Morro do Palácio, para Niterói e para o debate nacional sobre o direito à cidade, à educação e à dignidade nas periferias. Hoje, a Oficina Nossa atua no espaço da ONG A Base Cultural do Palácio. Quem é Walkiria Nictheroy Walkiria Nictheroy Oliveira é uma mulher preta, nascida em Niterói, com 31 anos de idade. A educadora possui o ensino médio completo e atua profissionalmente como professora de ensino fundamental no município. Militante a favor da educação pública de qualidade, ela é estudante de Pedagogia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e organiza um pré-vestibular social ao lado de moradores da comunidade do Palácio, local onde também reside. A trajetória comunitária da professora é marcada pela presidência municipal da União da Juventude Socialista (UJS), uma organização política de juventude voltada para a luta por justiça social e melhores condições de vida para a população. A sua militância é ancorada na defesa sistemática dos direitos das minorias, no feminismo com bases marxistas, na garantia da cidadania plena a todos os cidadãos e na ocupação efetiva dos espaços de poder político pelo povo. Indignada com o abandono estrutural da população do estado do Rio de Janeiro, Walkiria acredita e atua em um projeto de emancipação focado nas mulheres, nas pessoas negras, na comunidade LGBTI e nos trabalhadores. Por conta desse propósito, a educadora já se lançou como candidata a deputada estadual em 2018, com o objetivo de ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa (ALERJ). Em sua trajetória política mais recente, em campanha ao cargo de vereadora na cidade de Niterói pela Federação Brasil da Esperança (PCdoB/PT/PV), ela destacou a defesa irrestrita das universidades públicas e dos profissionais da educação, exigindo mais investimentos diretos em formação, a valorização salarial da categoria e a ampliação das políticas de permanência e de assistência estudantil. O escopo de atuação da educadora abrange também a defesa do acesso da juventude ao primeiro emprego, a garantia de condições de trabalho dignas nos programas de jovem aprendiz e o fomento por meio de parcerias institucionais para a geração de novas oportunidades. Walkiria defende fortemente a garantia dos direitos das mulheres, o incentivo constante para a contratação feminina no mercado de trabalho e o acesso das mulheres periféricas a serviços essenciais de saúde pública e segurança. No que tange à segurança pública, Walkiria cobra a criação de um sistema integrado de inteligência capaz de garantir a preservação da vida do povo e da juventude periférica. Em seu manifesto político, ela afirma que a juventude não nasceu para o silêncio, mas para cantar, viver uma realidade justa e ocupar os espaços de decisão. Compartilhe isso: Compartilhar no X(abre em nova janela) 18+ Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook Curtir isso:Curtir Carregando... Relacionado Navegação de Post Tempestade interrompeu trânsito na Ponte Rio Niterói e causou falta de energia em São Gonçalo na última quinta-feira 02/04 Adolescente sofre agressão com fezes de cachorro em condomínio de São Gonçalo