Foto: Igor Holderbaum
Um projeto ambicioso de preservação histórica está prestes a entregar um novo cartão-postal para Cachoeiras de Macacu . Iniciadas em 2025, as obras de requalificação das ruínas da Capela de São José da Boa Morte devem ser concluídas neste ano de 2026, transformando a construção erguida em 1734 em um moderno complexo, com direito a centro comunitário, espaço cultural e um mirante para contemplação .
O resgate desse patrimônio — tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) desde 1989 — é fruto de um aporte de R$ 18 milhões captados via Lei de Incentivo à Cultura. A execução é uma parceria entre a Prefeitura de Cachoeiras de Macacu, a Elysium Sociedade Cultural e a Nova Transportadora do Sudeste (NTS).
Transformar um sítio arqueológico em um espaço funcional exige extremo cuidado para não descaracterizar o passado. Para garantir a segurança estrutural sem perder a essência, a arquiteta Jéssica Marques explicou a metodologia: “Cada ação é feita de forma controlada, garantindo que nada seja perdido nesse processo”.
O engenheiro responsável técnico, Pedro Carim, detalhou a proposta da nova área de observação: “A ideia é criar um espaço de contemplação que ofereça ao visitante uma nova visão do conjunto, sem interferir na estrutura original” “.
Para os realizadores do projeto, o impacto vai muito além da estética. O diretor da Elysium Sociedade Cultural, Wolney Unes, pontuou: “Este é um projeto que preserva e dinamiza um ativo cultural importante da região, que já foi cenário de inúmeros acontecimentos” . Na mesma linha, Erick Pettendorfer, CEO da NTS, celebrou o impacto social da obra: “Ao investir na conservação de bens culturais nos territórios onde atua, contribuímos para proteger a memória coletiva, valorizar a identidade local e fortalecer o vínculo das comunidades com sua própria história”.
As ruínas guardam segredos sobre a formação social da região. Antes do seu declínio, o local sediou batismos, casamentos, intensas lutas camponesas e sepultamentos que duraram até o século 19.
Segundo a historiadora Rachel Wider, especialista em Patrimônio Cultural que colabora com a Elysium, a capela nasceu de forma rústica, feita de pau a pique (barro e madeira) em 1734, ganhando uma pia batismal apenas em 1758. Ela revela detalhes curiosos sobre a relação da época com a morte:
“Pouco tempo depois, em 1768, foi benzido o cemitério, inicialmente com seis sepulturas e, em 1772, outras seis foram autorizadas. Parte dos enterros acontecia dentro da própria igreja, prática comum na época. Quanto mais próxima do altar a sepultura, maior o prestígio social do falecido e, segundo a crença, maiores seriam suas chances de salvação no juízo final”, relatou a historiadora.
Rachel Wider também refletiu sobre a importância pedagógica da obra: “Ela é uma ferramenta de interpretação do passado e conexão com o futuro. Para o presente, entregamos um conhecimento valioso sobre as formas de construir dos séculos anteriores […]. Para o futuro, deixamos um exemplo de como preservar esse tipo de patrimônio”.
Impulso ao turismo local
Cortada pelo Rio Macacu, a cidade de aproximadamente 57 mil habitantes (segundo o IBGE) já atrai entusiastas de esportes radicais, como rapel, trekking e montanhismo. A expectativa do poder público é que o novo complexo diversifique e amplifique esse fluxo de visitantes de outros estados e municípios.
“São José faz parte da rota Cenários e Sabores da cidade, uma experiência que une turismo rural, ecológico e gastronômico. Além disso, integra o circuito de ciclismo do Estado. Com o projeto, certamente a região, que já é muito frequentada pelos turistas, será ainda mais ativada”, projetou Paulo Schiavo Junior, secretário municipal de Sustentabilidade, Clima, Recursos Hídricos, Ecossistemas e Projetos Estratégicos “.
