Uma Sicília enterrada no passado
Para aqueles que gostam de rever filmes de uma época em que havia um cuidado maior com o roteiro e o conteúdo dramático, fica a dica de O Siciliano (1987), de Michael Cimino.
A história se passa em fins dos anos 1940 na Sicília. Baseia-se na obra de Mario Puzo, mesmo autor de O Poderoso Chefão (The Godfather).
Salvatore Giuliano (Christopher Lambert) é um cativante fora-da-lei que se dedica a roubar dos grandes latifundiários para buscar acabar, ou melhor, mitigar a fome dos miseráveis e dar-lhes a possibilidade de possuir terras para obter seu sustento com liberdade e chances de crescer. Parece um Robin Hood reciclado numa Itália em convulsão.
Tal qual um herói clássico, ele enfrenta forças com as quais não tem condições de pelejar. Durante um certo tempo ele é protegido por Don Mazino, o representante da máfia local. Esse personagem trata Giuliano como se fosse o filho que ele gostaria de ter tido. Há cenas emocionantes de carinho e respeito entre ele e o ingênuo aventureiro que toca, em planos distintos, em algo que não é permitido transgredir, a posse da terra, fonte de poder e riqueza da nobreza siciliana. E em um amor não convencionado entre um “bandido” fora do que possa ser aceito pelo sistema e um “bandido” de certa maneira integrado ao corpus do que possa ser denominado como autoridade.
Giuliano acaba por reunir contra si as forças que compreendem o status quo do poder dominante de então: a Máfia, a Nobreza e a Igreja.
Seu destino trágico é mais uma página dolorosa na história dos que lutam contra a opressão sem medir as consequências de seus atos.
Christopher Lambert desfila, com méritos, sua elegância e seu talento, apesar de não corresponder muito ao tipo que se esperaria de um rústico homem das montanhas nessa região localizada no extremo sul da Itália, perto da “ponta da bota”, que, ao fim de tudo, acaba por chutar seu glorioso traseiro.
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