A metade do infinito: Fellini e a epopeia do filme
Fellini é uma referência essencial na história do cinema. Seus filmes expõem a busca constante de um cinema de poesia, de invenção, de memória fluida, tangencial e marcada por um profundo sentimento de existência. Um existir que escapa sempre que é apanhado em uma cena, um enredo, um personagem. Há a sensação de que se esfumaçou ou se dissolveu no véu das imagens projetadas no ecrã.
Em Oito e Meio, o diretor de cinema Guido Anselmi está na iminência de rodar seu próximo filme. Falta-lhe inspiração, as ideias são vagas ou não se apresentam. A crise o leva de um lado para o outro, como se estivesse em um labirinto de sonhos, de memórias densas e imprecisas, de criações ainda por vir.
Ele é assediado por todos os lados. Os produtores querem a obra para fazerem-na circular comercialmente, o elenco está inseguro, as pessoas de seus afetos querem que seu amor as contemple. Um pandemônio. As imagens desfilam na tela de forma fragmentária, onírica, insuficientes e potentes ao mesmo tempo.
Guido é Marcello Mastroianni, que é Federico Fellini, que é ninguém e todo mundo, que é o espectador, o poeta, o artista, o filósofo, o homem comum acuado pela angústia de uma modernidade exigente e insaciável, um capitalismo cioso de lucro, uma sociedade do interesse, um círculo de promessas vis e cobertas por uma mentalidade de rolha, de achatamento das qualidades humanas, de aprisionamento do pensamento em uma caixinha fechada. Mas, ao mesmo tempo, tudo está em movimento, novas invenções industriais, originais formas de ganho, diferenciadas formas de amor e de sexualidade. Nada fica parado, a vida avança, a História progride.
Essa contradição entre linhas de força que apresentam a mudança, o evolver dialético e a reação a isso na forma de impedimentos, repressão, tamponamento dos espaços de circulação ampla é uma constante nas obras do mestre de Rimini. Trata-se da recriação artística da própria vida, embora não através de uma lente realista, que tende a tocar apenas na superfície do fenômeno.
Oito e Meio, o romance da tela, a melodiosa epopeia do cinema transita por experiências de ruptura e ressignificação. Contempla a exuberante sensibilidade de fazer da fragilidade uma potência filmando ser filmado. Como em La Dolce Vita ou em Roma, uma mistura de circo e de bordel, uma barafunda de interferências indigestas, o ridículo do humano, a inconsistência oculta dos homens, apesar de toda sua dura racionalidade, o enigma do feminino, o mistério do filme, de fazer o filme, de ser possível essa artesania especial de estar no filme mesmo sem estar nele.
O testemunho de Fellini é saboroso: “Se Marcello veste meu chapéu, não é para identificá-lo a mim, mas para criar uma transmissão de pensamento e tornar possível o simulacro.”
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