O Marinheiro: um drama extático de Fernando Pessoa
A Morte preside a cena. Trata-se de um “drama estático”: algo parado, imóvel, sem sofrer alterações de movimento no tempo. Não há ação física, mas profunda reflexão filosófica e poética. Em termos cênicos, há ação interior. E, no interior da ação, a palavra. Que sempre escapa, desliza, transporta, não se sabe bem o quê.
A palavra, a única forma de lidar com a morte, mesmo quando não dita explicitamente o seu sentido. Vale a pena? O poeta é um fingidor...; “Não sei quantas almas tenho”.
Três donzelas velam o corpo de uma quarta vestida de branco. O que se faz durante a peça ocorre ante a morte. Falam sobre o passado e sobre lembranças que nunca tiveram.
Uma das donzelas conta a história de um marinheiro (náufrago da existência?), náufrago em uma ilha inalcançável, que inventou uma nação inteira, um território inalienável, que se perde nas espumas do mar, para vencer a solidão. O “mar português”? Pessoa nunca se esquece de a-mar.
Porém, no final, toda cena pode ser apenas um sonho.
A peça aborda o mistério da existência, a existência do mistério, a alma dos heterônimos; a melancolia do tempo, no tempo, na alma do tempo, do tempo na alma.
O alto preço humano de existir. De inventar um destino, um sonho, um desejar que é imenso e que comporta, como todo desejar, também uma ruína.
E mais. Há um diálogo entre o eu lírico, o eu trágico, o eu como ficção, o eu da modernidade. O ideal que só se forma para que a história o transforme. A história com suas criações e perdas. As perdas com sua própria história. A vida que flui, que vai, que se vai, que se esvai. No fim, tudo é impreciso. Tudo é escrito para se (tentar) escrever o ser.
Afinal, “Navegar é preciso; viver não é preciso.”
Bernardo Soares, uma das sombras de Pessoa, em seu Livro do Desassossego, diz que “não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram.”
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