Silas Malafaia rompe com Eduardo Paes e declara apoio à candidatura de Douglas Ruas ao governo do Rio
Líder religioso critica aliança do prefeito com o presidente Lula e cumpre agenda pública com o secretário estadual de Cidades na Região dos Lagos.
O cenário político fluminense registrou uma movimentação de grande impacto nos últimos dias. O pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, afirmou publicamente que encerrou sua posição de neutralidade em relação ao prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD). A postura isenta havia sido adotada pelo religioso nas duas últimas eleições municipais (em 2020 contra Marcelo Crivella e em 2024 contra Alexandre Ramagem).
A relação entre os dois vinha de um histórico de respeito mútuo. Em setembro do ano passado, após uma operação de busca e apreensão da Polícia Federal contra Malafaia, Paes chegou a defendê-lo publicamente em um culto, afirmando que "mexeu com Silas Malafaia, mexeu comigo". Na época, o pastor retribuiu o gesto chamando o prefeito de amigo e rejeitando patrulhamentos ideológicos sobre a amizade.
No entanto, o alinhamento de Paes com o governo federal foi o estopim para o rompimento. "Paes escolheu o lado do Lula, é direito dele. Eu não vou caminhar com alguém que apoia o Lula depois desse deboche com o povo cristão nesse desfile no Sambódromo", declarou o pastor. Malafaia também minimizou a escolha da candidata a vice de Paes, Jane Reis, afirmando que a presença de uma evangélica na chapa não mudará sua posição política.
Com o distanciamento de Paes, Malafaia já definiu seu rumo para a eleição estadual de outubro. Ele afirmou que, independentemente da decisão do governador Cláudio Castro sobre permanecer no cargo ou renunciar para disputar o Senado, seu apoio está selado: "Para governador, apoio ou o Douglas Ruas ou o secretário da Polícia Civil, Felipe Curi. Qualquer um dos dois".
A aliança já ganha contornos práticos. No último sábado (21), Malafaia fez sua primeira agenda pública ao lado de Douglas Ruas, atualmente cotado para ser o candidato da direita contra Paes. Os dois participaram da inauguração de uma filial da igreja Vitória em Cristo na cidade de Cabo Frio, na Região dos Lagos, consolidando a aproximação.
Apoio de Bolsonaro e incertezas na sucessão
O apoio de Malafaia soma-se à forte sinalização do ex-presidente Jair Bolsonaro, que tem defendido o nome de Douglas Ruas em conversas reservadas. Visto como um nome altamente viável por carregar a bandeira da segurança pública, o secretário aguarda um consenso no partido. Dirigentes do PL ressaltam que a escolha da chapa não será imposta, mas construída internamente em articulação com o senador Flávio Bolsonaro, o presidente estadual Altineu Côrtes e o governador Cláudio Castro em reuniões pós-Carnaval.
As negociações ganham ainda mais urgência diante das incertezas institucionais do estado. Há a possibilidade concreta de um mandato-tampão caso Cláudio Castro deixe o cargo para disputar o Senado. Atualmente, o Rio de Janeiro não possui sucessores naturais na linha de poder direto, já que o ex-vice Thiago Pampolha assumiu vaga no Tribunal de Contas (TCE) e o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, foi preso. Esse vácuo sucessório pode alterar todo o calendário eleitoral e exigir novas estratégias do partido.
O retorno de São Gonçalo ao comando do Estado após 55 anos
Se a candidatura de Douglas Ruas se confirmar e for vitoriosa nas urnas, o fato representará um marco político para São Gonçalo, que atualmente é o segundo maior colégio eleitoral do Rio de Janeiro. O município voltaria a ter um "filho da terra" no comando do Executivo estadual após mais de meio século de hiato. Até o momento, a história política fluminense mostra que a cidade não elege um governador "gonçalense de raiz" ou surgido de sua prefeitura há exatos 55 anos.
O único e grande exemplo histórico é Geremias de Mattos Fontes (1930–2010). Diferente de outros políticos que apenas buscam votos na cidade durante as campanhas, Geremias tinha raízes profundas: nasceu no bairro de Neves, foi secretário municipal e prefeito de São Gonçalo entre 1959 e 1962. Com a força dessa base, governou o antigo Estado do Rio de Janeiro (antes da fusão com a Guanabara) entre os anos de 1967 e 1971. Além da sua trajetória política de destaque, ele era advogado, pastor batista e deixou um forte legado social ao fundar a Comunidade S8, instituição voltada para a recuperação de dependentes químicos.
Quem é Douglas Ruas?
A indicação de Malafaia coloca os holofotes do estado sobre o representante do Leste Fluminense. Douglas Ruas dos Santos, de 36 anos, é filho do Capitão Nelson, atual prefeito de São Gonçalo, e de Dona Marinete. Casado com Mariana Barbosa e pai do pequeno Miguel, Douglas tem formação sólida: é bacharel em Direito, pós-graduado em Gestão Pública e servidor concursado da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro.
Nos últimos anos, ele tem se dedicado intensamente à gestão pública. Entre 2017 e 2018, atuou como subsecretário de Trabalho de São Gonçalo. Logo depois, entre 2019 e 2020, assumiu a superintendência regional do Instituto Estadual do Ambiente (INEA).
Seu papel de maior destaque no município ocorreu a partir de 2021, quando assumiu a Secretaria de Gestão Integrada e Projetos Especiais em São Gonçalo. Na pasta, foi o responsável pela elaboração de projetos, captação de recursos e pela articulação direta do município com os governos Estadual e Federal. Foi Douglas quem elaborou o Plano Estratégico Novos Rumos, um planejamento estruturante para os quatro anos de governo que tem promovido transformações significativas na cidade.
O reconhecimento desse trabalho nas ruas se refletiu nas urnas. Em sua primeira disputa eleitoral, Douglas Ruas conquistou o apoio e a confiança da população, sendo eleito para a sua primeira legislatura como o segundo deputado estadual mais votado de todo o Estado do Rio de Janeiro, somando expressivos 175.977 votos.
No seu primeiro ano na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), destacou-se na defesa do consumidor, na valorização dos servidores da segurança pública e na defesa dos interesses da população de São Gonçalo, apresentando projetos de lei e indicações legislativas focados na melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.
Sua forte atuação parlamentar, somada à experiência bem-sucedida no executivo gonçalense, chamou a atenção do Palácio Guanabara, resultando no convite do governador Cláudio Castro para assumir o comando da Secretaria de Estado das Cidades, cargo que o credencia hoje como um dos nomes mais fortes para a sucessão estadual.
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