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CULTURA E LAZER

Fernando Zulu defende “museu quintal” no MUHCAB

Diretor-presidente diz que o museu bateu recorde de público em julho, teve nota 92 em seleção antirracista do ICOM e publicou o conselho curatorial no Diário Oficial; a redação conferiu o que há de registro, inclusive sobre Niterói e São Gonçalo

Leste Fluminense News 8 min de leitura
Homem sorrindo, de camisa marrom-alaranjada, diante de um painel xadrez azul e creme com o desenho de um prédio histórico e letreiros.
Fernando Zulu, diretor-presidente do MUHCAB, em retrato recebido pela redação. Foto: Reprodução

O diretor-presidente do Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), Fernando Zulu, disse nesta quarta-feira (21), em vídeo gravado no anúncio do Distrito Cultural Pequena África, que o museu bateu o recorde de visitação em julho, com 22 mil visitantes no Julho das Pretas. Zulu defende o “museu quintal”, que aposta na ocupação do território, e diz, em vídeo do Canal Preto, que o museu precisa ir “pra além dos muros”.

Zulu aparece identificado no vídeo do evento como diretor-presidente do museu. O texto de apresentação recebido pela redação o descreve como gestor de projetos, produtor cultural e educador popular, com mais de dez anos de experiência em iniciativas de impacto social. Segundo o mesmo texto, ele cursa Economia na UFRJ e Gestão Pública na Universidade Estácio de Sá, é especialista em articular parcerias em territórios periféricos e em planejar e gerir equipes, e tem como focos a educação, a cultura, a cidadania e a geração de emprego e renda. O compromisso com a transformação social por meio do afeto, da educação e da cultura também é destacado.

Recorde, selo e conselho

Na gravação do evento, Zulu falou do desempenho do MUHCAB no Julho das Pretas, mês de ações dedicadas às mulheres negras, com marco em 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

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“O MUHCAB esse ano bateu o recorde de visitações no mês de julho, recebemos 22 mil pessoas no Julho das Pretas, foi uma marca muito significativa pra mim, que eu sou uma pessoa apaixonada por números com afeto, e é muito importante também”

Fernando Zulu, diretor-presidente do MUHCAB

A redação não encontrou, em fontes públicas, o levantamento de visitação do museu para conferir o número ou compará-lo com outros meses e anos.

Zulu citou ainda a nota do museu em um selo ligado ao ICOM Brasil.

“Nós recebemos a nota 92 no selo de igualdade racial, do troféu Muriquinho, do ICOM, que é uma certificação muito importante pros museus”

Fernando Zulu

O nome oficial é Selo e Troféu Muriquinho de Museus Antirracistas, edital do Comitê Permanente Antirracista do ICOM Brasil e da Rede Museologia Kilombola que premiará 15 instituições do Brasil, da América Latina e do Caribe. No resultado final, divulgado em 15 de outubro, o MUHCAB aparece em 24º lugar entre 70 instituições, com 92 pontos de um máximo de 100. As 15 primeiras, com notas de 95 a 100, serão premiadas em 4 e 5 de novembro, em Salvador, durante o I Simpósio Internacional de Museus e Museologia Antirracista.

Zulu afirmou ainda que 92 é a nota máxima para um equipamento público e que, por isso, o museu considera ter recebido 100%. O edital fixa o teto em 100 pontos e não menciona limite para museus públicos. Dois dos seis critérios, porém, valem 5 pontos para museus comunitários, quilombolas, indígenas, de periferias urbanas ou geridos por coletivos de base local e 3 pontos para instituições do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste do Brasil e de territórios periféricos urbanos da América Latina e do Caribe. Pela soma, quem não se enquadra em nenhum dos dois perfis fica, no máximo, com 92 pontos. A lista final traz só a nota total, e a redação não localizou o detalhamento por critério do MUHCAB nem a regra a que Zulu se refere.

Por fim, Zulu falou do conselho curatorial do museu na mesma gravação, feita nesta quarta-feira.

“Hoje foi publicado no Diário Oficial o nosso conselho curatorial, esse conselho vai ajudar a pensar as exposições de longa temporada aqui no museu”

Fernando Zulu

Segundo ele, os conselheiros estavam presentes no evento. O trecho do vídeo termina antes de ele citar quem são, e a redação não localizou o ato nem a lista de integrantes nas fontes consultadas.

Museu quintal

A ideia que Zulu defende para o MUHCAB é a de um “museu quintal”, em que a ocupação tem o território no centro, e não só o prédio da Gamboa.

Na gravação do Canal Preto, ele diz que o museu precisa ir “pra além dos muros”: em vez de esperar que as pessoas cheguem à porta, deve criar uma proposta de ocupação e ir até elas. Zulu estende o desafio a outras instituições do Rio:

“Eu convido qualquer outro museu a refletir sobre e criar uma proposta dele”

Fernando Zulu, em vídeo do Canal Preto

Na avaliação dele, quem costuma ocupar os espaços de museu são pessoas brancas, de classe média, com certo acesso e passagem por bons colégios.

“A galera periférica que é a base, ou ela é artista que tá produzindo, ou ela tá trabalhando”

Fernando Zulu, em vídeo do Canal Preto
Vídeo: reprodução de rede social. Ver no Instagram →

O museu e o território

O MUHCAB fica na Rua Pedro Ernesto, 80, na Gamboa, região portuária do Rio, em um prédio construído no fim do século 19, que já abrigou escolas e uma biblioteca e, na década de 1980, virou o Centro Cultural José Bonifácio, segundo o portal da Prefeitura. O museu foi criado por decreto em 2017 e só abriu ao público em 23 de novembro de 2021, de acordo com a Prefeitura; depois de reformas, reabriu em 29 de junho de 2024.

A Secretaria Municipal de Cultura, em seu portal, apresenta o museu como uma instituição dedicada a preservar e valorizar a história e a cultura afro-brasileira, com a missão de “transformar o entendimento do que é ser negro no Brasil”. Vizinho ao Cais do Valongo, sítio arqueológico inscrito pela Unesco na lista do Patrimônio Mundial em 2017, ele é um dos 15 pontos de memória da Pequena África, segundo a Prefeitura, e foi definido como museu de território em reportagem do Brasil de Fato de 2021.

O anúncio desta quarta-feira, feito no próprio museu, apresentou o Distrito Cultural Pequena África, projeto da Prefeitura do Rio com o BNDES para a região portuária. Segundo a Prefeitura, os investimentos iniciais previstos somam cerca de R$ 23 milhões, a serem captados entre recursos públicos e privados, e a primeira obra será a requalificação da Praça dos Estivadores, orçada em R$ 2 milhões.

Em reportagem de 16 de agosto, a Agência Brasil apresentou a exposição “Território Inventivo Pequena África”, em cartaz no museu, que reúne maquetes, mapas interativos, realidade aumentada e ambientes cenográficos sobre a história da região. Segundo a reportagem, Zulu destaca que os recursos tecnológicos aproximam o público do território e de sua memória, e diz que quem viveu na região vai encontrar maquetes do próprio território. A mostra é um projeto do Instituto CIRCOMUM, patrocinado pela Vibra Energia por meio da Lei Rouanet, segundo a Alma Preta.

Também na agenda de 2026, segundo a Secretaria Municipal de Cultura e a imprensa

  • Exposição “Protagonismos: Memória, Orgulho e Identidade”, em cartaz em junho e agosto, de terça a domingo.
  • 27 de maio: o museu recebeu uma das atividades do VI Fórum Estadual de Museus, com o tema “Museus para Adiar o Fim do Mundo”.
  • 21 de junho: “Ancestralidade, Cuidado e Carnaval Filhas de Gandhy”, com oficinas, vivências artísticas e cortejo do Afoxé Filhas de Gandhi RJ, das 10h às 17h.
  • 16 a 18 de agosto: festival “Gingado nas Raízes do Brasil”, com arte, música, dança, capoeira e gastronomia.
  • 16 de outubro: “Mulheres Negras em Estado de Primavera”, a partir das 12h, com feira de iniciativas negras, rodas de conversa, afroturismo, jazz, samba e sarau, segundo a Rádio Manchete Rio.

E o Leste Fluminense?

No Censo 2022, do IBGE, 45,9% dos moradores de São Gonçalo se declararam pardos e 17%, pretos, segundo O São Gonçalo, o que soma 62,9%. Em Niterói, de acordo com A Seguir Niterói, 29,96% se declararam pardos e 12,51%, pretos, o que soma 42,5%. É nessas duas cidades que a redação procurou, em fontes públicas, os laços do museu com a região.

O que aparece é pontual e vem de anúncios. Em 12 de fevereiro de 2025, O São Gonçalo informou que o museu receberia, no dia 15, o Escuta Festival, do Instituto Moreira Salles, com entrada gratuita e a oficina “Corpo-memória”, da artista plástica Gabriella Marinho, descrita pelo jornal como “mulher negra e moradora de São Gonçalo”. Em 22 de julho de 2024, o mesmo jornal anunciou que o 2º Encontro Nacional da Umbanda teria atividade cultural no museu, em 27 de julho, e terminaria em São Gonçalo, no bairro de Neves, com uma plenária no dia 28. A redação não confirmou que os dois eventos ocorreram como anunciados. Ambos são anteriores ao período em que Zulu aparece como diretor nos registros encontrados, a partir de agosto de 2026.

Já há outro ponto de contato marcado. O livro infantil “Brincando de Sonhar”, de Dandara Freitas, de 11 anos, e de Isabela Freitas, será lançado em 30 de outubro, durante a Flim, em Maricá, e terá um “segundo lançamento” em uma galeria do museu em 22 de novembro, das 11h às 16h, segundo O São Gonçalo. A reportagem não informa onde as autoras moram.

Nas fontes públicas consultadas, a redação não encontrou registro de oficinas, cursos ou mentorias do museu com artistas, movimentos ou coletivos de Niterói e de São Gonçalo no período em que Zulu aparece como diretor, nem de atividades fora da sede com data e local. Também não achou a data em que ele assumiu o cargo. A falta de registro não prova que essas ações não existam. A lista de integrantes do conselho curatorial, que a redação não localizou, é uma das informações que mostrariam se há nomes da região na curadoria do museu.

Serviço

  • Onde: Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), Rua Pedro Ernesto, 80, Gamboa, Rio de Janeiro
  • Quando: de terça a domingo, das 10h às 17h
  • Quanto: entrada gratuita
  • Instagram: @muhcab.rio

Canal de Pautas

Participou de atividades do MUHCAB ou conhece um coletivo da região que passou por lá? Conte para a redação do LF News pelo WhatsApp (21) 99574-2241.

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